Texto escrito em 2010. Algumas coisas mudam, outras não.
Sinto-me uma mulher vivendo na Antiguidade Grega. Não por comparar-me as deusas do Olimpo, e sim por viver em meio as mesmas injustiças das quais eram vítimas as espartanas. Sinto-me uma Madame Bovary. Sonhadora e esperançosa, mas da qual as ilusões são arrancadas. Sinto-me uma Sinhá Vitória. Submissa, desgraçada, mas nutrindo uma ânsia por mudança. Sinto-me imóvel, presa a uma realidade retrógrada e disfarçada. Sim, disfarçada. Aspectos antes explícitos - como a antiga exclusão do direito feminino na escolha de autoridades políticas ou como a idealização da mulher-Amélia - escondem-se por trás da hipocrisia humana, com a qual eu não quero compactuar.
Uma sociedade paradoxalmente avançada intelecto e cientificamente e injustamente preconceituosa é uma fusão que desafia minha capacidade explicativa. Chega a ser patético julgar uma pessoa baseando-se em características ímpares e descartáveis. Não me julgue por ser mulher, ou o julgarei por julgar-me. Seria a Bíblia minha desgraça? Afinal, por que nós fomos feitas a partir da costela de Adão e não o inverso? E por que o cargo mais alto atribuído aos seguidores da doutrina cristã - o de Papa - é restrito a homens?
De nada vale igualdade perante a lei , se não há igualdade perante a vida. Defendo uma sociedade livre de influências passadas. Livre de inocentes – mas saturadas - piadas e brincadeiras, livre de barreiras profissionais e até mesmo livre de crimes passionais; aqueles silenciosos, falsamente justificáveis por amor e muitas vezes, fatais. Defendo uma sociedade que caminhe pra não existência de uma política de defesa especial voltada para mulher, já que isso apenas evidencia o abismo ideológico entre sexos. Recuso-me a ser uma Macabéa. Rejeito a ideia de ser invisível, desejo uma hora da estrela abrangente, contínua e eterna.
O que fazer para mudar? Passeatas anarquistas? Campanhas ignoradas? O que fazer para quebrar essa sequência linear que assombra nossa história? Sejamos nós Jacintos, que transformam opiniões pré-moldadas e supérfluas em sede por justiça social. Retomemos o Trovadorismo e suas cantigas de amor que exaltam a mulher. Cantigas essas que nos tratam por senhora e que - infelizmente - estão tão distantes de nossa atual realidade.
É deprimente ver que em um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente há preconceito de gênero. É deprimente saber que mulheres têm menos oportunidades que homens, tanto pessoal quanto profissionalmente. É deprimente saber que ainda existam aqueles que sigam o velho e estúpido estereótipo o qual descreve a mulher como apenas objeto reprodutor e servil. É deprimente, mas talvez a tamanha degradação desse tipo de pensamento seja um impulso, um combustível para a luta por mudanças.
Façamos nossos atos se igualarem aos de Iracema. A virgem dos lábios de mel representa a união de mundos distintos e distantes. Mundos a qual fusão era improvável, mas aconteceu. Que as mulheres sejam os índios e os homens, os europeus. Ou vice-versa. E que a mistura não represente o nascimento de um novo povo, mas sim de uma nova era.
Na obra "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, há a descrição de um hipotético mundo no qual as pessoas são condicionadas a viver em harmonia com as leis e regras sociais. A sociedade apresentada é controlada de forma autoritária, sendo o conceito de família inexistente, por exemplo. Um mundo como o de Huxley não é o que defendo, mas pode-se inferir uma semelhança de intenção na presença de harmonia entre seus membros.
Macabéa alcançou. Bovary - apesar de eterna - se foi, mas deixou em mim um resquício de esperanças. Sinhá Vitória está fadada a seguir sua vida em círculos imutáveis. Círculos dos quais não quero fazer parte. Iracema é o espelho que desejo. Trago aqui uma síntese do que penso ser a real riqueza do século XXI: aspiração à mudança. Não digo ser fácil, pois exemplos cotidianos diversos contradizem tal ideia. Mas digo ser possível. Quebremos o ideal de aspiração ao utópico.