sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Existencial

me escapou o momento certo
quando achei que tivesse acertado
agora o que vivo é o representado
pois me engana até o concreto

os momentos que preenchem meus dias
são repetições inacabadas de outros
e continuo buscando na primazia
o dano causado no sistema nervoso

o que me esqueço é da realidade,
que o passado retoma à verdade,
o tempo é o senhor da razão

e é quem prescreve a solidão.
o que mudaria, descartei: a criatividade:

deixei de ser momento e virei sociedade.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Minha porta

Posso entrar?
Não.
Por que não?
Não quero, não posso.
Não quer ou não pode?
Não posso.
Nem só um pouco?
Não sei se devo.
Só tem a ganhar.
Só tenho a lascar.
Se te lascas, lasco junto.
Mentiroso.
Mentir é bom.
Tá mentindo?
Tô sim.
Já esperava.
Já esperou demais.
É verdade.
Então?
Mas só um pouco?
Nem vai sentir!
Não?
Vai.
Mentindo de novo.
Fecha os olhos.
Tenho medo.
Não precisa.
Tão fechados.

E ficou.
O passageiro ficou.
O temporário ficou.
Ficou marcado, impregnado.
E gos(t)ou.
Amou. Passou. Amou.
Ficou.

no fundo dos olhos

No fundo dos olhos aquele vazio colosal
preenchido por uma vida consumida e recalcada
repleta de virtudes, vaidades e moral
que não permite enxergar a verdade mascarada.

A integridade de nosso caráter ganha "valor"
se torna a mercadoria que trocamos dia a dia
seja a força, as ideias, o tempo ou o amor,
que no final das contas se tornará a mais valia

E o que fazia sentido se perdeu novamente
foi substituído por outra virtude, outro produto.
Na sociedade de imagem o ausente está presente

O que não pode ser é ao tempo inteiro, tudo.
E é aí que a vida se exaure e vai embora
Somos usados a vida inteira e depois jogados fora

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

crianças

Crianças que não possuem futuro
idosos presos em suas cabeças
não sobrou muito para a família
se não aguardar a execução

perpetuada pelos furos
nas roupas e nas mesas
na pobreza e na comida fria
que existe para além da inflação

homens e mulheres sem sentido
aguardando domingos e profetas
se prendendo em vazias palavras

que não possuem nem si nem almas
que não existem senão nas ramelas
do capital, seu sujo umbigo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

a voz da noite solitária

a voz da noite solitária me encontra
me diz coisas e espera que chore em prantos
mas não se lembra que as lágrimas
fui eu mesmo quem cultivei durante os anos

A quarentena vitalícia espera que eu ria
Entorpecido pelos mais profundos instintos
Esquece que é impossível uma vida dionísica
quando ja foi determinado algum sentido

O mais belo coração há de se conformar
pois há desejos que morrerão sem saciar
E ainda deve se preparar para o pior

Que tudo é passageiro, e ficaremos só.
pois a gota que cai ou o sorriso que fica
se torna no fim a nostalgia da ferida.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ouroboros

Texto escrito em 2010. Algumas coisas mudam, outras não.


Sinto-me uma mulher vivendo na Antiguidade Grega. Não por comparar-me as deusas do Olimpo, e sim por viver em meio as mesmas injustiças das quais eram vítimas as espartanas. Sinto-me uma Madame Bovary. Sonhadora e esperançosa, mas da qual as ilusões são arrancadas. Sinto-me uma Sinhá Vitória. Submissa, desgraçada, mas nutrindo uma ânsia por mudança. Sinto-me imóvel, presa a uma realidade retrógrada e disfarçada. Sim, disfarçada. Aspectos antes explícitos - como a antiga exclusão do direito feminino na escolha de autoridades políticas ou como a idealização da mulher-Amélia - escondem-se por trás da hipocrisia humana, com a qual eu não quero compactuar.

Uma sociedade paradoxalmente avançada intelecto e cientificamente e injustamente preconceituosa é uma fusão que desafia minha capacidade explicativa. Chega a ser patético julgar uma pessoa baseando-se em características ímpares e descartáveis. Não me julgue por ser mulher, ou o julgarei por julgar-me. Seria a Bíblia minha desgraça? Afinal, por que nós fomos feitas a partir da costela de Adão e não o inverso? E por que o cargo mais alto atribuído aos seguidores da doutrina cristã - o de Papa - é restrito a homens?

De nada vale igualdade perante a lei , se não há igualdade perante a vida. Defendo uma sociedade livre de influências passadas. Livre de inocentes – mas saturadas - piadas e brincadeiras, livre de barreiras profissionais e até mesmo livre de crimes passionais; aqueles silenciosos, falsamente justificáveis por amor e muitas vezes, fatais. Defendo uma sociedade que caminhe pra não existência de uma política de defesa especial voltada para mulher, já que isso apenas evidencia o abismo ideológico entre sexos. Recuso-me a ser uma Macabéa. Rejeito a ideia de ser invisível, desejo uma hora da estrela abrangente, contínua e eterna.

O que fazer para mudar? Passeatas anarquistas? Campanhas ignoradas? O que fazer para quebrar essa sequência linear que assombra nossa história? Sejamos nós Jacintos, que transformam opiniões pré-moldadas e supérfluas em sede por justiça social. Retomemos o Trovadorismo e suas cantigas de amor que exaltam a mulher. Cantigas essas que nos tratam por senhora e que - infelizmente - estão tão distantes de nossa atual realidade.

É deprimente ver que em um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente há preconceito de gênero. É deprimente saber que mulheres têm menos oportunidades que homens, tanto pessoal quanto profissionalmente. É deprimente saber que ainda existam aqueles que sigam o velho e estúpido estereótipo o qual descreve a mulher como apenas objeto reprodutor e servil. É deprimente, mas talvez a tamanha degradação desse tipo de pensamento seja um impulso, um combustível para a luta por mudanças.

Façamos nossos atos se igualarem aos de Iracema. A virgem dos lábios de mel representa a união de mundos distintos e distantes. Mundos a qual fusão era improvável, mas aconteceu. Que as mulheres sejam os índios e os homens, os europeus. Ou vice-versa. E que a mistura não represente o nascimento de um novo povo, mas sim de uma nova era.

Na obra "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, há a descrição de um hipotético mundo no qual as pessoas são condicionadas a viver em harmonia com as leis e regras sociais. A sociedade apresentada é controlada de forma autoritária, sendo o conceito de família inexistente, por exemplo. Um mundo como o de Huxley não é o que defendo, mas pode-se inferir uma semelhança de intenção na presença de harmonia entre seus membros.

Macabéa alcançou. Bovary - apesar de eterna - se foi, mas deixou em mim um resquício de esperanças. Sinhá Vitória está fadada a seguir sua vida em círculos imutáveis. Círculos dos quais não quero fazer parte. Iracema é o espelho que desejo. Trago aqui uma síntese do que penso ser a real riqueza do século XXI: aspiração à mudança. Não digo ser fácil, pois exemplos cotidianos diversos contradizem tal ideia. Mas digo ser possível. Quebremos o ideal de aspiração ao utópico.

Um documento para nos atentarmos...


No mundo do trabalho não tem jeito: o trabalhador e o trabalho fecharão o fluxo de expropriação da força de trabalho, quando são transformados em mercadoria pelo capital, mediados pelo salário este por sua vez composto pelo valor (determinado em última instância pelo mercado). Em um mundo globalizado a cultura acaba se tornando uma só para todos, muitas vezes suplantando e substituindo os pensamentos e costumes locais, revelando a real característica dessa culturalização: ganhar mercado e fazer todos consumirem uma mesma ideologia e cultura. Ao verificarmos que importamos elementos culturais de outros países, tornamos um elemento presente nas sociedades desde que o ser humano se organiza, em mais um produto. De que formas então poderíamos criar políticas que integrem sociedade, arte e cultura afim de trazer de volta nossos costumes, tradições, nossa cara? 

"Quando a discriminação e a intolerância contra imigrantes de todo o mundo, assim como contra indígenas, idosos, deficientes e pobres, ganham proporções descomunais, parece imperar uma desesperança generalizada (...) Quando tal panorama global parece constituir a nossa irremediável realidade e destino, vale a pena repensar a vida, voltar às raízes, reler-nos no espelho de obsidiana com tela de plasma e visualizar os caminhos possíveis e as novas alternativas a partir do âmbito local, para renovar e reconceitualizar nossos vínculos com o global." (pg. 140)

Acho que vale a pena dar uma verificada, mesmo que um primeiro momento a palavra itaú surja como um empecilho, entretanto uma série de pensadores, gestores e teóricos participaram ad construção deste documento. Devemos sempre tomar cuidado com os interesses e os jogos de poder, mas não podemos deixar nos escapar os instrumentos criados nesses âmbitos e apropriarmos deste conhecimento, pois de alguma forma pode nos ser útil.

Abaixo segue o link.