terça-feira, 31 de dezembro de 2013

crianças

Crianças que não possuem futuro
idosos presos em suas cabeças
não sobrou muito para a família
se não aguardar a execução

perpetuada pelos furos
nas roupas e nas mesas
na pobreza e na comida fria
que existe para além da inflação

homens e mulheres sem sentido
aguardando domingos e profetas
se prendendo em vazias palavras

que não possuem nem si nem almas
que não existem senão nas ramelas
do capital, seu sujo umbigo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

a voz da noite solitária

a voz da noite solitária me encontra
me diz coisas e espera que chore em prantos
mas não se lembra que as lágrimas
fui eu mesmo quem cultivei durante os anos

A quarentena vitalícia espera que eu ria
Entorpecido pelos mais profundos instintos
Esquece que é impossível uma vida dionísica
quando ja foi determinado algum sentido

O mais belo coração há de se conformar
pois há desejos que morrerão sem saciar
E ainda deve se preparar para o pior

Que tudo é passageiro, e ficaremos só.
pois a gota que cai ou o sorriso que fica
se torna no fim a nostalgia da ferida.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ouroboros

Texto escrito em 2010. Algumas coisas mudam, outras não.


Sinto-me uma mulher vivendo na Antiguidade Grega. Não por comparar-me as deusas do Olimpo, e sim por viver em meio as mesmas injustiças das quais eram vítimas as espartanas. Sinto-me uma Madame Bovary. Sonhadora e esperançosa, mas da qual as ilusões são arrancadas. Sinto-me uma Sinhá Vitória. Submissa, desgraçada, mas nutrindo uma ânsia por mudança. Sinto-me imóvel, presa a uma realidade retrógrada e disfarçada. Sim, disfarçada. Aspectos antes explícitos - como a antiga exclusão do direito feminino na escolha de autoridades políticas ou como a idealização da mulher-Amélia - escondem-se por trás da hipocrisia humana, com a qual eu não quero compactuar.

Uma sociedade paradoxalmente avançada intelecto e cientificamente e injustamente preconceituosa é uma fusão que desafia minha capacidade explicativa. Chega a ser patético julgar uma pessoa baseando-se em características ímpares e descartáveis. Não me julgue por ser mulher, ou o julgarei por julgar-me. Seria a Bíblia minha desgraça? Afinal, por que nós fomos feitas a partir da costela de Adão e não o inverso? E por que o cargo mais alto atribuído aos seguidores da doutrina cristã - o de Papa - é restrito a homens?

De nada vale igualdade perante a lei , se não há igualdade perante a vida. Defendo uma sociedade livre de influências passadas. Livre de inocentes – mas saturadas - piadas e brincadeiras, livre de barreiras profissionais e até mesmo livre de crimes passionais; aqueles silenciosos, falsamente justificáveis por amor e muitas vezes, fatais. Defendo uma sociedade que caminhe pra não existência de uma política de defesa especial voltada para mulher, já que isso apenas evidencia o abismo ideológico entre sexos. Recuso-me a ser uma Macabéa. Rejeito a ideia de ser invisível, desejo uma hora da estrela abrangente, contínua e eterna.

O que fazer para mudar? Passeatas anarquistas? Campanhas ignoradas? O que fazer para quebrar essa sequência linear que assombra nossa história? Sejamos nós Jacintos, que transformam opiniões pré-moldadas e supérfluas em sede por justiça social. Retomemos o Trovadorismo e suas cantigas de amor que exaltam a mulher. Cantigas essas que nos tratam por senhora e que - infelizmente - estão tão distantes de nossa atual realidade.

É deprimente ver que em um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente há preconceito de gênero. É deprimente saber que mulheres têm menos oportunidades que homens, tanto pessoal quanto profissionalmente. É deprimente saber que ainda existam aqueles que sigam o velho e estúpido estereótipo o qual descreve a mulher como apenas objeto reprodutor e servil. É deprimente, mas talvez a tamanha degradação desse tipo de pensamento seja um impulso, um combustível para a luta por mudanças.

Façamos nossos atos se igualarem aos de Iracema. A virgem dos lábios de mel representa a união de mundos distintos e distantes. Mundos a qual fusão era improvável, mas aconteceu. Que as mulheres sejam os índios e os homens, os europeus. Ou vice-versa. E que a mistura não represente o nascimento de um novo povo, mas sim de uma nova era.

Na obra "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, há a descrição de um hipotético mundo no qual as pessoas são condicionadas a viver em harmonia com as leis e regras sociais. A sociedade apresentada é controlada de forma autoritária, sendo o conceito de família inexistente, por exemplo. Um mundo como o de Huxley não é o que defendo, mas pode-se inferir uma semelhança de intenção na presença de harmonia entre seus membros.

Macabéa alcançou. Bovary - apesar de eterna - se foi, mas deixou em mim um resquício de esperanças. Sinhá Vitória está fadada a seguir sua vida em círculos imutáveis. Círculos dos quais não quero fazer parte. Iracema é o espelho que desejo. Trago aqui uma síntese do que penso ser a real riqueza do século XXI: aspiração à mudança. Não digo ser fácil, pois exemplos cotidianos diversos contradizem tal ideia. Mas digo ser possível. Quebremos o ideal de aspiração ao utópico.

Um documento para nos atentarmos...


No mundo do trabalho não tem jeito: o trabalhador e o trabalho fecharão o fluxo de expropriação da força de trabalho, quando são transformados em mercadoria pelo capital, mediados pelo salário este por sua vez composto pelo valor (determinado em última instância pelo mercado). Em um mundo globalizado a cultura acaba se tornando uma só para todos, muitas vezes suplantando e substituindo os pensamentos e costumes locais, revelando a real característica dessa culturalização: ganhar mercado e fazer todos consumirem uma mesma ideologia e cultura. Ao verificarmos que importamos elementos culturais de outros países, tornamos um elemento presente nas sociedades desde que o ser humano se organiza, em mais um produto. De que formas então poderíamos criar políticas que integrem sociedade, arte e cultura afim de trazer de volta nossos costumes, tradições, nossa cara? 

"Quando a discriminação e a intolerância contra imigrantes de todo o mundo, assim como contra indígenas, idosos, deficientes e pobres, ganham proporções descomunais, parece imperar uma desesperança generalizada (...) Quando tal panorama global parece constituir a nossa irremediável realidade e destino, vale a pena repensar a vida, voltar às raízes, reler-nos no espelho de obsidiana com tela de plasma e visualizar os caminhos possíveis e as novas alternativas a partir do âmbito local, para renovar e reconceitualizar nossos vínculos com o global." (pg. 140)

Acho que vale a pena dar uma verificada, mesmo que um primeiro momento a palavra itaú surja como um empecilho, entretanto uma série de pensadores, gestores e teóricos participaram ad construção deste documento. Devemos sempre tomar cuidado com os interesses e os jogos de poder, mas não podemos deixar nos escapar os instrumentos criados nesses âmbitos e apropriarmos deste conhecimento, pois de alguma forma pode nos ser útil.

Abaixo segue o link.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

não mais vejo

Não mais vejo a verdade
em cada esquina que passa
me deparo com essa massa
de luto e sobriedade,

Incesto, fruto de uma falácia

que diz construir, mas só segmenta
não pode ser, senão a caça,
mas se transformou em ferramenta.

Enquanto na escuridão maquino,

debaixo de meus olhos a areia derrama,
o tempo sórdido e sofrido

Que se desfaz nas chamas,

do fogo que tentava apagar
mas que não pude, senão contemplar

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Vida danada" em vídeo

Ilustrando palavras.


Vida danada

Acordo pela manhã abro o computador, minha vida ordinária continua. Fuço os perfis de quem não tem perfil nenhum, pelas redes sociais; leio as notícias em sites alienados; vivencio um desespero angustiador ao ver o vídeo do frigorífico nojento e das indiossincrasias do ser humano. Saio do meu quarto e tomo um café, acendo um cigarro e não sei o que fazer. Me sinto enjaulado em casa, nada me satisfaz, nem a pornografia gratuita muito menos jogos de poker virtuais. A presença das pessoas me faz falta; almoço qualquer coisa: um miojo e outro café, ou um gole de água e um saco de roscas de côco. Saio para ir ao banco, e vejo a cidade em sua viva execução do sistema vigente e logo sacio meu anseio da falta de pessoas. Mas tão logo percebo a artificialidade das construções e a superficialidade das pessoas e termino pensando em mim mesmo. Fico feliz em ver a criança correndo atrás das pombas. Ao voltar para casa com as contas pagas, 10 reais no bolso, atravesso a rua fora da faixa e vejo a vitrine na liquidação imagino quantas pessoas já as viram. Lembro-me de coisas que não lembrava há muito tempo e de pessoas que nem sequer estavam em minha memória, mas que um dia também estiveram comigo vendo os manequins e as roupas que todo mundo quer, mas ninguém pode comprar.  Logo penso em gastar. Passo pelo bar, podre, cheio de bêbados, sujo mas com salgados a 1 real e 50 centavos:
                — Bom dia, gostaria de uma esfiha de carne.
                —Não temos, apenas empadas de palmito.
                — Então deixa, obrigado. Bom trabalho.
                —Obrigado. Tenha um bom dia.

Penso no diálogo programado sem consciência que acabo de ter. Um impulso que gera a desordem natural das coisas, e logo me assusto em pensar que a contradição está em cada palavra, gesto, pensamento, ou qualquer movimento. E de novo vejo as lamentações da vida.
Volto para casa, ando quatro quarteirões e ao passar por uma calçada me deparo com uma janela aberta e quando percebo estou bisbilhotando a moradia de um outro indivíduo. Olho a cômoda vejo retratos em fotos impressas, a obsolescência surge enquanto característica nas fotos da família. Me faz pensar como o ser humano é tosco, por mais contraditório que seja: os gestos, os movimentos, as palavras, os olhares, os pensamentos evidenciam sua essência escondida por muito tempo, que quer pular para fora do corpo o tempo inteiro. A janela se torna espelho, me vejo retratado nas fotos em cima da cômoda, as memórias que não me tocavam surge como um turbilhão, uma mistura de Kubrick, Taratino, Eastwood e Chaplin, em uma fração da fração do segundo que vira um milhão de minutos. A buzina do carro me chama atenção, uma era em minhas memórias se torna a dinâmica da história, metamorforizada no carro, na roupa e no tempo. Continuo meu caminho e a história se mostra mais um fardo, do que uma essência um dia identificada pelos Marxs, que viveram na sociedade:

                — Aí, o sinhô tem um trocado pra mi dá?
—“Sinhô, trocado?” penso eu—Só um minuto... —fuço algumas moedas— Tu é daqui do bairro?
— Não não, tô ficando ali no albergue, só que num tenho trabaio e lá é mais barato. Num so vagabundo antes que ocê pense. Estou tentando trabaiar como jardineiro pra juntar uma grana pra voltar pra casa... mas ninguém quer meu serviço.
— Entendi...e sempre foi daqui?
— Costumava ter uma banda de rap na capital.
—Como os Racionais?
— Não tao foda...era mais ou menos, era uma pegada como essa mistura e RZO.
—Pedrada.
— Era muito fóda, só rolê fudido e a vida era boa.
— O que aconteceu então, como você parou na rua?
—Minha família não queria, achava coisa de bandido, mas eu apostei e fui, só que não deu certo, logo me vi sozinho e largado. Logo veio o álcool, a cocaína, as ruas e a mendigagem.
—Fóda.
                — Fóda é o estado não ligar para você, estar omisso, ser um zé ninguém, o engravatado passa do seu lado e você não existe, mas todos passam e vc começa a achar que  inexiste. Fóda é não ter grana, não ter como viver de uma maneira digna...e ter que pedir esmola. Mas fazer o que...
—Que treta mano, mas como chamava seu grupo?
— Inimigos do Estado
—E fizeram algum som?
— Não.
—Entendi. Não sei se ajudo de algum jeito, mas tó aqui 1 real e 75 centavos...
— Ta ótimo! Obrigado.
— Boa sorte nessa vida parceiro. —cumprimento-o.
—Valeu meu.



Me volto a pensar na contradição e então me esqueço o nome da banda, logo estou em casa e tão logo me prendo novamente na prisão que cada um está sujeito de alguma forma de outra, na rua, na casa, nas vitrines, no bar, nos vicíos, nas memórias, na história, no tempo e nas coisas. Coloco um racionais, me lembro o nome da banda: “foda é assistir a propaganda e vê, não da para ter aquilo para você. Playboy forgado de brinco: cu, trouxa...”. Lembro do diálogo. O turbilhão volta e entendo a contradição externa, interna, inerente e sempre em interação: enquanto houver pessoas, haverá abstração, metafísica e subjetividades. Esses elementos vão nos permear. Abro o computador e pesquiso sobre psicnálise, sem nunca ter sabido nada, sem nunca ter conhecido uma pessoa, sem nunca ter estado junto com a situação. A separação e objetificação das relações sociais impera, entendo um pouco mais sobre a contradição, sendo a personificação do contraditório. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Próxima parada:

Seco lágrimas com receio que o meu próprio eu as veja. Ninguém por perto, mas tanta gente. Tanta gente em minha mente. Mente confusa essa minha, como se nada fizesse sentido, como se o mundo não fosse meu lugar e como se a vida não me pertencesse. Vivo em busca de um porquê, de um motivo. Mas pra que? O que eu quero é me perder em pensamentos, em confusões. Quero me perder no não saber o que saber. Quero sentir as emoções a mil e vive-las todas. Quero o artificial, pois assim posso acrescentar a essência que desejar. Ah, mas também quero o natural, esse senhor novidade que insiste em surpreender e me ganha com suas sutilezas grotescas. Eu quero a vida, com todas suas curvas e derrapadas, com todas as bifurcações e caminhos tortuosos que me levam a mais louca aventura de não saber o que vai acontecer e ao mais louco desejo de continuar não sabendo.


Pé no mundo

Um cantinho pra ficar, uns trocados pra gastar e muita coisa pra aprender.
Viajar é mais que simplesmente partir pra outro lugar. Viajar é se transformar.
Esses dias me deparei com brasileiros, gregos, bósnios, sérvios e italianos batendo um papo e cozinhando feijoada. E, no fundo, era muito mais que só estar ali, era olhar e ouvir alguém que teve - desde sempre - contato com um mundo totalmente diferente do seu. E cara, nada mais incrível que se pegar boquiaberto com as diferenças que existem nesse lugar gigantesco que a gente vive...
Viajar é aprender a ter momentos com - e apenas com - seu eu.
E, da forma mais doida, descobrir que você é interessante pra caramba...
Viajar é se desprender daquilo tudo... Sem ignorar a maldita (saudades).
Áqueles que se permitem absorver um pouquinho de cada encontro, de cada amizade, cada paisagem, cada som, cada cheiro, cada medo, cada sabor... meu mais sincero sorriso com a certeza de momentos eternos.


Henry Miller foi um escritor norte-americano, sempre lembrado por suas histórias cheias de ficção e erotismo.



no fundo dos olhos

No fundo dos olhos aquele vazio colossal
preenchido por uma vida consumida e recalcada
repleta de virtudes, vaidades e moral
que não permite enxergar a verdade mascarada.

A integridade de nosso caráter ganha "valor"
se torna a mercadoria que trocamos dia a dia
seja a força, as ideias, o tempo ou o amor,
que no final das contas se tornará a mais valia

E o que fazia sentido se perdeu novamente
foi substituído por outra virtude, outro produto.
Na sociedade de imagem o ausente está presente

O que não pode ser é ao tempo inteiro, tudo.
E é aí que a vida se exaure e vai embora
Somos usados a vida inteira e depois jogados fora

domingo, 15 de dezembro de 2013

Meu eu

Meu corpo é enorme, imenso.
Aqui cabe mais que eu, aqui cabem pessoas, momentos, amores.
Aqui cabem vontades infinitas, prazeres incontáveis, tristezas.
E de tão grande - tão farta - tão cheia de espaço, me sinto só.
Vazia.
Impossível preencher esse todo. Ou seria possível?
Não, que nada! Não há modo de se sentir completa nesse mundo de solidão.
Ou há?
Olho pro lado e vejo incontáveis pontos de felicidade alheia. Felicidade... o que é isso?
Minha felicidade não é sua felicidade e tampouco felicidade de outrem.
Felicidade é um bicho tão mutante quanto a própria mudança, se camufla e se transforma.
E eu vou me transformando junto...
Há algum tempo diria que sou assim e ponto. Não sou. Estou.
Todos nós estamos.
E a cada vírgula, a cada linha, eu mudo junto com o enredo.
E me sinto bem - completamente bem - sem conhecer o meu abstrato desfecho.

Carnificina Sertaneja

1897 é festa na europa e podridão em nossa terra
o nordeste é aniquilado pela morte e miséria
os porcos se lançam contra a nostalgia do sertão
caos, violência, brutalidade e destruição

Nem armas, nem preces, nem jesus cristo.
Nada irá salvar Antônio Conselheiro e seu rebanho
O império vem decidido para estraçalhar
vem uma, vem duas, vem o necessário para matar.

Canudos, luta até a morte
até os porcos sádicos cansarem de rir.
Canudos, luta,
até a ultima criança resistir

1 mês de aniquilação e devastação
A podridão está no ar e os defuntos choram;
abutres, vermes e fungos os devoram.
25 mil cadáveres tomando sol, jogados ao chão


Canudos, luta até a morte
e a luxúria imperial nao termina
Canudos, luta e nao desite
até a ultima chacina.