Acordo pela manhã abro o computador, minha vida ordinária
continua. Fuço os perfis de quem não tem perfil nenhum, pelas redes sociais;
leio as notícias em sites alienados; vivencio um desespero angustiador ao ver o
vídeo do frigorífico nojento e das indiossincrasias do ser humano. Saio do meu
quarto e tomo um café, acendo um cigarro e não sei o que fazer. Me sinto
enjaulado em casa, nada me satisfaz, nem a pornografia gratuita muito menos
jogos de poker virtuais. A presença das pessoas me faz falta; almoço qualquer
coisa: um miojo e outro café, ou um gole de água e um saco de roscas de côco.
Saio para ir ao banco, e vejo a cidade em sua viva execução do sistema vigente
e logo sacio meu anseio da falta de pessoas. Mas tão logo percebo a artificialidade
das construções e a superficialidade das pessoas e termino pensando em mim
mesmo. Fico feliz em ver a criança correndo atrás das pombas. Ao voltar para
casa com as contas pagas, 10 reais no bolso, atravesso a rua fora da faixa e
vejo a vitrine na liquidação imagino quantas pessoas já as viram. Lembro-me de
coisas que não lembrava há muito tempo e de pessoas que nem sequer estavam em
minha memória, mas que um dia também estiveram comigo vendo os manequins e as
roupas que todo mundo quer, mas ninguém pode comprar. Logo penso em gastar. Passo pelo bar, podre,
cheio de bêbados, sujo mas com salgados a 1 real e 50 centavos:
— Bom dia,
gostaria de uma esfiha de carne.
—Não temos, apenas
empadas de palmito.
— Então deixa,
obrigado. Bom trabalho.
—Obrigado. Tenha
um bom dia.
Penso no
diálogo programado sem consciência que acabo de ter. Um impulso que gera a
desordem natural das coisas, e logo me assusto em pensar que a contradição está
em cada palavra, gesto, pensamento, ou qualquer movimento. E de novo vejo as
lamentações da vida.
Volto para
casa, ando quatro quarteirões e ao passar por uma calçada me deparo com uma
janela aberta e quando percebo estou bisbilhotando a moradia de um outro
indivíduo. Olho a cômoda vejo retratos em fotos impressas, a obsolescência
surge enquanto característica nas fotos da família. Me faz pensar como o ser
humano é tosco, por mais contraditório que seja: os gestos, os movimentos, as
palavras, os olhares, os pensamentos evidenciam sua essência escondida por
muito tempo, que quer pular para fora do corpo o tempo inteiro. A janela se
torna espelho, me vejo retratado nas fotos em cima da cômoda, as memórias que
não me tocavam surge como um turbilhão, uma mistura de Kubrick, Taratino,
Eastwood e Chaplin, em uma fração da fração do segundo que vira um milhão de
minutos. A buzina do carro me chama atenção, uma era em minhas memórias se
torna a dinâmica da história, metamorforizada no carro, na roupa e no tempo.
Continuo meu caminho e a história se mostra mais um fardo, do que uma essência
um dia identificada pelos Marxs, que viveram na sociedade:
— Aí, o sinhô tem um trocado pra
mi dá?
—“Sinhô, trocado?” penso eu—Só um minuto... —fuço algumas moedas— Tu é
daqui do bairro?
— Não não, tô ficando ali no albergue, só que num tenho trabaio e lá é
mais barato. Num so vagabundo antes que ocê pense. Estou tentando trabaiar como
jardineiro pra juntar uma grana pra voltar pra casa... mas ninguém quer meu
serviço.
— Entendi...e sempre foi daqui?
— Costumava ter uma banda de rap na capital.
—Como os Racionais?
— Não tao foda...era mais ou menos, era uma pegada como essa mistura e
RZO.
—Pedrada.
— Era muito fóda, só rolê fudido e a vida era boa.
— O que aconteceu então, como você parou na rua?
—Minha família não queria, achava coisa de bandido, mas eu apostei e
fui, só que não deu certo, logo me vi sozinho e largado. Logo veio o álcool, a
cocaína, as ruas e a mendigagem.
—Fóda.
— Fóda é o estado não ligar para
você, estar omisso, ser um zé ninguém, o engravatado passa do seu lado e você
não existe, mas todos passam e vc começa a achar que inexiste. Fóda é não ter grana, não ter como
viver de uma maneira digna...e ter que pedir esmola. Mas fazer o que...
—Que treta mano, mas como chamava seu grupo?
— Inimigos do Estado
—E fizeram algum som?
— Não.
—Entendi. Não sei se ajudo de algum jeito, mas tó aqui 1 real e 75
centavos...
— Ta ótimo! Obrigado.
— Boa sorte nessa vida parceiro. —cumprimento-o.
—Valeu meu.
Me volto a
pensar na contradição e então me esqueço o nome da banda, logo estou em casa e tão
logo me prendo novamente na prisão que cada um está sujeito de alguma forma de
outra, na rua, na casa, nas vitrines, no bar, nos vicíos, nas memórias, na
história, no tempo e nas coisas. Coloco um racionais, me lembro o nome da
banda: “foda é assistir a propaganda e vê, não da para ter aquilo para você. Playboy
forgado de brinco: cu, trouxa...”. Lembro do diálogo. O turbilhão volta e
entendo a contradição externa, interna, inerente e sempre em interação:
enquanto houver pessoas, haverá abstração, metafísica e subjetividades. Esses
elementos vão nos permear. Abro o computador e pesquiso sobre psicnálise, sem
nunca ter sabido nada, sem nunca ter conhecido uma pessoa, sem nunca ter estado
junto com a situação. A separação e objetificação das relações sociais impera,
entendo um pouco mais sobre a contradição, sendo a personificação do
contraditório.
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